As vezes, não sinto nada.

04/08/2017

guilherme,

hoje li um texto tão forte que me lembrou você e eu chorei. chorei tudo que precisava. eu sei, do fundo do meu coração, que você estaria aqui comigo, chorando tudo que precisasse, chorando seu passado e seu presente. as vezes dói tanto imaginar como você se sentiu, e não queria me sentir culpada por não estar com você, mas eu sinto. já tentei não imaginar a tua morte. dói uma dor que eu não queria sentir, e por muitas vezes, não sinto. o mundo foi cruel com nós dois, e queria tanto que você estivesse acompanhando toda a minha mudança de agora, tudo que sou. me sinto sozinha e sendo engolida por coisas e causas maiores que eu. você poderia ter sido qualquer outra pessoa e eu sei, sei mesmo, que ainda iria rir das coisas que falo e tudo estaria bem. espero que você não tenha ficado sozinho. o meu mundo te acolhe agora, de todas as formas. as lágrimas ainda caem e eu sinto sua falta.

Pompéia.

Vesúvio está apenas adormecido.
Ele ainda é visto de Pompéia, a cidade petrificada.
No alto do teu ser, magnifico.
Como uma bela paisagem destrutiva.
Ele foi esquecido por tanto tempo.
Pararam no tempo.
As mulheres Lupa que valiam dois copos de vinhos, pararam no tempo.
Escritores, bêbados, gladiadores e tabernas foram perdidos pelo tempo.
Todos os vestígios, perdidos.
Todas as outras histórias, escondidas pelo tempo.
Mesmo com todos os sinais, o tempo levou.
A escuridão de Misenum, mudada pelo tempo.
Os relatos, escondidos e trancafiados.
A força devastadora, contida com o tempo.
Até antigos poetas diziam “nem mesmo os deuses acima gostariam de ter tanto poder”,
mas o tempo teve.
apenas o tempo.

Open your eyes. 

aquela esperança mansa me invadiu, maldita. meu cabelo cresceu, e estou falando mais baixo e cada vez menos… talvez sejam essas as únicas mudanças por aqui. já contigo, algumas bocas com gosto de bebidas passando pelo teu corpo. não vou dizer que sinto muito, nessa altura, não posso te dizer ou pedir absolutamente nada. talvez aqui tenha ficado do jeito que você deixou. não me importo se a cada dia eu fumo mais e você se perde em outras coisas. não dá pra evitar tudo, mas ainda te lembro como a paisagem mais linda que pousou diante dos meus olhos.

água.

tudo é tão quente quando estou com você

consigo, por minutos, esquecer os dias frios.

o sol nasce distante, em tons alaranjados.

você me encara e sorri.

a água está gelada e você se nega a entrar,

teus olhos não estão mais perdidos

você sabe onde focar agora.

te olho de lado, e corro de encontro ao lago

tua risada ecoa com o som dos pássaros

jogo minha blusa no chão.

tudo está gelado mas estou ardendo. 

você observa a forma como a água abre espaço para meu corpo

grita de longe para sair dali.

tira algumas fotos, e balança a cabeça.

te faço fazer coisas que você não faria se estivesse sã.

mas nada, nada comigo tem um pingo de sanidade.

anda como se fosse um gato sorrateiro.

a água te acolhe, como você nunca imaginou.

está tudo bem agora. 

diz que a água e eu fazemos ser o que sempre quis

mas tua insegurança não deixou.

chegou devagar, apoio uma perna no seu quadril

o sussurro vai conforme a água balança

“ainda bem!”.

turbulento.

você mudou meu jeito de gostar, confesso. mudou meu jeito de olhar para o céu. nunca fui boa em demonstrar o que sinto e sei que nunca vou ser, mas talvez, um dia você entenda que não dá pra misturar tudo, não dá para parar de sentir o que sente e não dá para parar de achar que não é digna. o mundo é um lugar frágil para pessoas como nós, e muito, muito pequeno para pessoas como você. não quis contaminar nossa possível relação com as coisas que me afetam, não quis deixar você ver esse pedaço da história, não te cabe sofrer algo que não te envolve. as coisas ainda não estão resolvidas, e eu sei, claro que eu sei, que não estarão resolvidas mês que vem. eu não estou resolvida, e não dá pra você mergulhar tão fundo num mar sem saber que dia irá ver o sol. eu sinto muito.